Entrevista com o Professor René Rocha

Professor René Rocha autografando seu livro na Bienal de São Paulo

René Rocha e os estudos sobre cultivo


O Professor René Rocha é reconhecido no meio orquidófilo por sua contribuição no que se refere, principalmente, às questões relativas ao cultivo e à disseminação dos resultados das pesquisas e experimentos que realiza em seu orquidário. Dotado de espírito investigativo e de uma curiosidade extremamente jovial, esse mineiro nascido em Areado, dedica sua vida e grande parte de seu tempo à elaboração e divulgação de literatura didática sobre o cultivo das orquídeas, principalmente em sua obra “ABC do Orquidófilo – de uma, várias ou muitas orquídeas”, um guia que contempla aspectos extremamente importantes para os que pretendem manter uma coleção de orquídeas saudável e equilibrada.

Em meu contato com o Professor René pude perceber claramente tratar-se de uma pessoa voltada ao conhecimento, aos estudos e também à cultura. Homem de amor às Letras e às orquídeas, René Rocha consegue unir suas vocações de maneira bastante criativa e inovadora, trazendo ao seu público leitor a oportunidade de conhecer cada vez mais sobre as teorias que resultam na melhoria significativa do trato direto com as plantas.

Na entrevista que se segue, o Professor René fala sobre sua experiência de mais de trinta anos de cultivo, esclarece seus leitores sobre as atualizações a que sua obra foi submetida nos últimos anos e ainda antecipa um pouco de seus projetos literários em andamento. De grande importância para a perpetuação de uma orquidofilia mais voltada à pesquisa e ao estudo, esta entrevista com o Professor René Rocha, tem a finalidade central de trazer ao público leitor do Clube do Orquidófilo, a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra desse orquidólogo autodidata que tanto tem trabalhado para promover e incentivar uma orquidofilia de maior qualidade em nosso país.

Boa leitura!

André Merez




Clube do Orquidófilo – Como você interpreta o antagonismo que se percebe na orquidofilia presente no dilema ‘Paixão versus Razão’?  Dá pra fazer orquidofilia a contento focando-se em apenas uma dessas duas forças?

René Rocha – O orquidófilo(a) colecionador superficial, na grande maioria apaixonado e mero juntador de plantas,  parece não ter muita vontade de obter conhecimentos ou de dispor um tempinho diário para estudos.  Apenas se apressam em formar logo uma coleção. Nunca lhes sobra tempo para adquirir conhecimento básico, o que é uma condição para o sucesso de qualquer empreitada.  Pensam que deverão existir produtos milagrosos em defensivos e adubos ou vitaminas salvadoras e orquídeas floridas sempre prontas para compras regulares e fonte de fotos maravilhosas para serem exibidas como mérito de seu cultivo.

Outra força, a dos racionalistas, mais lhes interessa a qualidade da flor e sua perfeição geométrica e seu alto valor estético e financeiro, chegando mesmo a desprezar as híbridas e as orquídeas botânicas ou até mesmo espécies naturais e que não mais se encaixam no modelo ou no ideal de perfeição e dos modismos.  Partem logo para tentativas de inseminação e reprodução artificial.   Bons estudiosos, geralmente, isto muito lhes aumenta a chance de sucesso e, principalmente, de especialização.
   
São dois extremos, que sempre comento com alguma reserva. Cada um desses, bem ou mal, incrementa a produção, importação, comercialização, e impulsiona o mercado. Manter o foco entre a racionalidade e a paixão, dirigindo-as convenientemente é sempre o melhor para o sucesso e o bem estar pessoal.

Clube do Orquidófilo – Considerando a necessidade de um aprofundamento nas questões relativas ao cultivo, quais observações importantes você apontaria nas diferentes formas de buscar informações sobre esse tema? A internet com os grupos de discussões sobre cultivo descartou a necessidade da busca por literatura especializada?

René Rocha – A internet sempre foi e será uma grande ferramenta e banco de informações e até de estudos, desde que o internauta já tenha formada uma base de conhecimentos, que lhe permita separar joios e trigos.  Daí a importância de revistas e livros e dos artigos técnicos e científicos, que são indispensáveis à formação de um leque de conhecimentos de base.  São fornecedores de teorias e de práticas mais adequadas e seguras e que permitem queimar etapas e evitar insucessos.
  
Porém, as redes sociais estão criando um novo perfil de internautas, o ‘The Flash’, aquele super-herói aliado ao santo Expedito, o das causas super-rápidas e prontamente atendidas. Por isso, relutei bastante ao ingressar nas redes sociais.  Elas esvaziaram os antigos grupos do Yahoo e outros parecidos, onde se permitiam dinâmicas de grupo nos debates e os armazenavam para futuras consultas.  Nos grupos das redes sociais poucos arquivos são armazenados e poucos debates se alongam às conclusões necessárias.  Em raras oportunidades aí consegui participar e incentivar episódios de brainstorming bem sucedidos.
              
A técnica de brainstorming (expressão inglesa formada pela junção das palavras "brain", que significa cérebro, intelecto, e "storm", que significa tempestade) propõe que um grupo de pessoas se reúna e utilize seus pensamentos e ideias para que possam chegar a um denominador comum, a fim de gerar ideias inovadoras e que levem um determinado projeto adiante.
  
Nenhuma ideia deve ser descartada ou julgada como errada ou absurda, todas devem estar na compilação ou anotação de todas as ideias ocorridas no processo, para depois evoluir até a solução final.  Nos grupos das redes sociais, em geral, parece que os assuntos ficam inacabados e apressados, tipo:  Oi,  tchau  ou  ‘berebará-e-lepolepo’, como recentemente aí escreveu um amigo internauta. 

Clube do Orquidófilo – Sua atuação na orquidofilia é conhecida pela preocupação com a pesquisa e a divulgação de conhecimentos de modo prático para o público orquidófilo. De que maneira o ABC do Orquidófilo tem contribuído para esse objetivo? Fale sobre os principais objetivos desse trabalho.

René Rocha – Desde seu lançamento, em setembro de 2008, tenho feito várias reimpressões,  corrigindo e atualizando. Recentemente, na segunda edição de setembro de 2014, as modificações foram mais amplas e impulsionadas pelas grandes mudanças ocorridas na nomenclatura.  Nestes sete anos, as informações ali transmitidas foram tomando força e aceitação, devido à sua forma didática, à simplicidade na comunicação com o leitor e à consulta fácil de assuntos e termos técnicos na obra, mas principalmente pela honestidade do texto.   Procuro sempre traduzir a aridez da linguagem científica sem a tornar simplória.  Assim, incentivo o leitor ao aprofundamento nos estudos e pesquisas, e a caminhar com pernas próprias e levar a sério, mesmo que cultive poucas orquídeas e apenas por lazer. 


Além do texto e fotos em cores, o livro também conta com um CD em encarte com mais de 2.500 fotos e imagens, arquivos de apoio e de atualizações sempre sendo ampliados a cada nova reimpressão ou edição.   A obra conta também com a assistência permanente ao leitor e a qualquer interessado.  Para dúvidas ou expansão de assunto sobre orquídeas, atendo diariamente através do formulário de contato e ‘pergunte ao professor’, no site: www.abcdoorquidofilo.vai.la.  Mas isto não sai de graça ao solicitante, já que farão parte de meu novo ABC das mil perguntas e respostas, um livro escrito a mil mãos de leitores e perguntadores, mais uma, a minha; Mil e uma mãos, portanto!

Clube do Orquidófilo - Fale-nos um pouco sobre o seu cultivo, suas preferências e experiências importantes adquiridas ao longo desses 33 anos de orquidofilia.

René Rocha – Minha coleção é um misto de orquidário e laboratório de experimentos e pesquisas.  O plantel é eclético, pois gosto de quaisquer orquídeas que possam se adaptar, e cada novo broto e raiz me fascinam, tanto quanto uma nova espata e flor. Raramente compro plantas a preços elevados. É neste orquidário em área urbana, e também em outros dois de que cuido, localizados na área rural que faço minhas pesquisas, tocando, em média, 20 experimentos ao ano. São investigações sobre adubação e defensivos, substratos e modos de cultivo.

Nos últimos cinco anos, especialmente sobre resultados do Manejo Integrado de Cultivo, usando tanto agentes biológicos disponíveis quanto o agroquímico mais eficiente e de menor toxidade. Apenas uso agroquímico quando estritamente indispensável, e seguindo metodologia mais segura e individualizada de aplicação e seguindo receituário de meu agrônomo de confiança e protocolos de manejo integrado.  Isto é objeto de meu novo livro, ABC das Pragas e Doenças.  Todas as pesquisas que faço estão alimentando os quatro novos livros que estou redigindo.
   
Clube do Orquidófilo – Qual é o tamanho da sua coleção atualmente? Seu plantel é variado ou procura focar seu cultivo em determinados gêneros?

René Rocha – Mantenho perto de mil orquídeas, pois é o espaço que possuo em meu quintal, quantidade ajustada para o tempo de que disponho para bem cuidar e tocar experimentos. Sou um ‘orquitudo’ confesso, e procuro adaptar e descobrir novos modos de aclimatação nos orquidários de que cuido e, principalmente, no meu. Sempre tive preferência por plantas entouceiradas e que mostrem um bom cultivo e exuberantes floradas. Confesso que, no momento, as mini-Cattleya  híbridas ou espécies têm me atraído bastante.

Clube do Orquidófilo – No meio orquidófilo, fala-se muito da diferença entre “colecionador” e “juntador” de orquídeas.  O que é mais importante, quantidade ou qualidade?

René Rocha – Penso que depende do espaço, do tempo disponível, da disposição financeira e da orientação ou do interesse da coleção, sempre seguindo a máxima de cultivar apenas o que se consegue bem cuidar. O que seriam das orquídeas de interesse apenas botânico se  cultivassem apenas plantas de altíssima qualidade e premiadas? Quem tem bolso suficiente para tal?

A preservação de um banco genético com adaptação em cultivo é importante para a reprodução artificial e tão ou mais que a conservação na natureza.   Isto possibilitará a defesa de nossa flora continuamente devastada em nome do pseudoprogresso, regido por leis de proteção frouxas no seu cumprimento.   Quem nos garante que uma orquídea em seu habitat não será logo carbonizada junto com as árvores em fornos clandestinos para a indústria do aço?  Ou dizimada em ampliações da fronteira agrícola e pecuária ou de áreas para novos condomínios e grandes resorts?  Ou em inundações por represamentos de novas hidrelétricas?

Isso não quer dizer que se deva sair por aí coletando na natureza, mas conservar através de semeaduras in vitro, sim.  Um banco genético é uma importante, SE NÃO A ÚNICA solução e a qualidade (seja lá o conceito que se queira imprimir) sempre será importante. 
  
A palavra qualidade tem um conceito subjetivo, que está relacionado com as percepções, necessidades e resultados em cada indivíduo. Diversos fatores, como a cultura, modelos mentais, tipo de produto ou serviço prestado, necessidades e expectativas influenciam diretamente a percepção da qualidade”.


















Clube do Orquidófilo – Ainda falando sobre a qualidade das plantas, o que é uma orquídea de qualidade em sua opinião? Esse conceito deve passar necessariamente por questões relacionadas à morfologia da flor e da saúde vegetativa ou existem outros fatores que devem ser considerados?

René Rocha –  Penso que se devam perseguir os conceitos de julgamento internacionais, como aqueles da AOS e JOGA, principalmente,  e adaptando-os às condições locais na tentativa de melhorar e internacionalizar os padrões brasileiros.   Dois fatores, a cada vez mais relegados em exposições e julgamentos são o mérito de cultivo,  que leve em conta a saúde vegetativa; outro, é que se deveria premiar a boa condição estética da orquídea, não aquela recentemente coletada,  mas aquela nativa e adaptada ao cultivo artificial e sem ter passado por melhoramentos genéticos.  Estas deveriam ser julgadas em categoria separada daquelas melhoradas artificialmente.

Clube do Orquidófilo – Uma Associação paranaense dedicada ao cultivo de Cattleya intermedia teve o cuidado de separar em diferentes categorias de julgamento as plantas nativas das plantas que passaram por melhoramentos genéticos. Qual sua opinião sobre esse critério de julgamento?
 
René Rocha – Parabenizo esta Associação paranaense, cuja ação deve ser imitada em todo o país também para outras espécies brasileiras.  Isto só vem a valorar e defender nossas espécies nativas e seu importante banco genético preservado em cultivo artificial ou nos habitats restantes.

Clube do Orquidófilo – Em seu site oficial ABC do Orquidófilo, encontra-se disponível para venda a segunda edição 2014 do seu livro ampliada e revisada. O que foi modificado nesta segunda edição?

René Rocha – Foi revisada, ampliada e, principalmente atualizada de acordo com a Nomenclatura atualmente aceita após o grande agito das publicações incentivadas e provocadas pelo mais recente Congresso Botânico Internacional (atualmente: Código Internacional de Nomenclatura de Algas, Fungos e Plantas), que gerou o Código de Melbourne de 2012.   As principais novidades, a de se permitir descrições em latim e também em Inglês, que facilitaram uma avalanche de novas publicações também  foi nova redação do Artigo 29.1, que incluiu a frase: "... A publicação também é efetiva pela distribuição eletrônica da matéria em Formato de Documento Portátil (PDF) em uma publicação online com um Número Padrão Internacional de Séries (ISSN) ou com um Número Padrão Internacional de Livros (ISBN)”.

A par disto, tive a preocupação de utilizar sempre o antigo nome como sinônimo do atual e aceito, para conservar o rumo ao leitor.   O processo de mudanças, em especial na Nomenclatura botânica, de fungos e algas tem sido a cada vez mais frequente pelo emprego de novas ferramentas de pesquisas científicas, daí a necessidade de sempre procurar atualizações nos checklists,  facilitados através dos links ativos que estão no CD de encarte do ABC do orquidófilo desta 2º edição de 2014.
 
Clube do Orquidófilo – É verdade que existe um novo projeto seu em andamento sobre orquídeas híbridas? O que você pode nos antecipar sobre esse projeto?

René Rocha – Sim, mas não só.  São mais quatro livros sendo redigidos e só esperando o parto, pois livros possuem vontade própria de gestação e de nascimento: ABC das Pragas e Doenças; ABC do Cultivo e da Adubação; ABC das Mil Perguntas e Respostas, e o ABC das Híbridas, Orquídeas. Neles, serão introduzidas novas tecnologias e ferramentas de informática para computadores, e aplicativos para tabletes e celulares, além de vídeos.  Como se dará este milagre tecnológico?  Estamos trabalhando com afinco, junto com uma boa equipe de informática. 

Clube do Orquidófilo – Pra finalizar, qual seria o seu grande conselho para aqueles que se iniciam agora no caminho orquidófilo?

René Rocha – Que procurem caminhos de cultivo de orquídeas e de novas e boas amizades, da beleza, de bons sentimentos, de crescimento intelectual e pessoal, que só a orquídea consegue incentivar e reunir em torno de si, quase sempre.

"A orquídea espera seu tempo de ser tempo, de verdejante à bela cor."

Meus agradecimentos ao Clube do Orquidófilo -  na pessoa do Prof. André Merez e a todos os leitores desta entrevista.


Serviço:
Para maiores informações sobre o trabalho do Professor René Rocha ou para adquirir seu livro acesse o site oficial do ABC DO ORQUIDÓFILO.




Bulbophyllum orthoglossum

Foto & cultivo: André Merez

Um sósia do Bulbophyllum carunculatum



Comprei essa planta ‘às cegas’ há uns bons anos, pelo menos uns cinco anos em uma exposição do Jardim Botânico de São Paulo. Na placa de identificação estava escrito Bulbophyllum carunculatum, mas no momento da compra não havia como saber a cor ou a forma dessa espécie e na época eu não a conhecia. Devo tê-la cultivado pelo menos uns dois anos sem obter floração, mas sua parte vegetativa desenvolveu-se bem, emitindo novos brotos e enraizando muito bem no vaso de barro com substrato de casca de pinus com carvão que utilizei para reenvasá-lo.

Achei interessante que, diferente das outras plantas dessa espécie que eu já conhecia, essa não possuía aquele espaçamento de rizoma entre os pseudobulbos que é tão característico dos Bulbophyllum. Só depois vim saber que esse gênero possui plantas desses dois tipos de comportamentos vegetativos.

Quando finalmente essa planta floriu, acabei descobrindo que se tratava na realidade da espécie ‘orthoglossum’ e não carunculatum, como estava escrito na placa de identificação que veio com a planta. O motivo da confusão na identificação é compreensível, já que as flores dessas duas espécies são realmente muito parecidas, sobretudo quando vistas por meio de fotos. Porém, quando vistas pessoalmente, percebe-se de imediato o que as diferencia. Acontece que o Bulbophyllum carunculatum é uma planta bem mais robusta com sua parte vegetativa e suas flores bem maiores do que as do Bulbophyllum orthoglossum.

Não bastasse essa ‘celeuma’, encontrei ainda no site ‘Orchidspecies’ a definição do Bulbophyllum orthoglossum descrito como uma subespécie do amplibracteatum juntamente com carunculatum. Considerando o conjunto das informações obtidas, e considerando principalmente as diferenças do porte dessas duas espécies, concluí que a planta da foto acima é realmente o Bulbophyllum orthoglossum.


Semelhanças e diferenças à parte, trata-se de uma planta de cultivo relativamente fácil e de crescimento bastante vigoroso. Pode receber o mesmo sistema de regas, iluminação e adubações de uma Cattleya, por exemplo, que se desenvolverá bem e não faltarão suas florações sequenciais, todo ano.




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